IRÃO - diário de viagem

NOVEMBRO 2018

O caminho de Yazd até Shiraz (o nosso último destino aqui no Irão) faz-se por uma estrada, consideravelmente boa, apelidada de Ring Road, que serpenteia pelas montanhas secas e desertas, onde de longe a longe se avistam pequenos oásis de cidades com árvores. Como lufadas de ar fresco, escondem-se entre as montanhas, aninhadas, contrastando com a secura das grandes escarpas, imponentes atrás delas. Outra coisa que nos salta à vista é a cor do céu. É um azul tão forte e tão intenso, que nos lembra a altitude a que estamos (1.500m). A linha que contorna a montanha e que a separa do azul fica bem marcada nos nossos olhos. O percurso de 450km era longo, mas tínhamos algumas paragens pelo caminho. Antes de sairmos de Yazd, fomos ver a chama eterna dos Zoroastrianos, para nos pormos a caminho da árvore milenar de 4.000 anos. Olhando para a árvore, confesso que não parece ter essa idade, mas não íamos discutir isso com estes fulanos. Tivemos o nosso almoço mais fraco no Irão, e fomos para Persepolis. Aqui, pedimos um guia para nos explicar alguma coisa sobre este sítio, senão íamos sentir que não tínhamos visto nem aprendido nada. Durante 1h30 o guia explicou-nos os locais, os desenhos, os pilares, as estátuas, as vistas e a história de tudo, mas fiquei desiludida quando ele disse que tudo aquilo só durou 200 anos. Mas durante essas 2 décadas, deve ter sido incrível de se ver. A majestosidade do lugar é indescritível e inexplicável. Se conseguíssemos imaginar tudo aquilo sem estar destruído, com as paredes pintadas, com as pedras preciosas, com toda a realeza dos países vizinhos desde a Índia até África a trazer todo o tipo de presentes, desde cavalos, camelos e leões, as colunas jónicas altíssimas, com figuras míticas no topo a suportar o peso das vigas trabalhadas, todos os tapetes persas estendidos, os tecidos pesados das roupas da realeza, os criados a abanar os nobres, as mármores de veios ricos e salientes, as madeiras trabalhadas... e tudo isto na base de montanhas áridas. Deve ter sido incrível! Despedimo-nos do nosso guia e de Persepolis com uma selfie e encaminhamo-nos para Shiraz. Em Yazd disseram-nos que Shiraz era muito mais bonita do que Yazd, então a expectativa era grande, porque Yazd para nós estava no topo da nossa seleção. Chamaram-lhe a cidade colorida e na minha cabeça imaginei uma Yazd com cor. Mal podia esperar por chegar! Mas quando a expectativa é grande, normalmente corre mal. Foi o caso... no hotel tivemos de pagar mais do que era suposto, o que para nós, habituados ao excelente câmbio até agora, foi como um tiro no pé. Em todos os hoteis pagamos 1/3 do que era suposto pagarmos e aqui pagámos a mais. O dono do hotel foi muito mal encarado e ainda nos disse que a tabela de preços exposta era para "iranians only". Pois sim... o preço tabelado era de 9€/noite e nós acabámos por pagar 26€. Na altura do envio do preço, por email há 2 meses atrás, o câmbio era para 24€ e agora era de 9€. Apesar do quarto ser bom e grande, pareceu-nos injusto a incoerência no discurso do tipo, que obviamente está a tentar ganhar mais uns trocos, de forma desonesta.

Sacudimos a má vibe dos ombros e fomos jantar. O maps.me indicava 1,8km do hotel até o restaurante e nós, que tínhamos acabado de chegar, decidimos ir a pé, para explorar a linda cidade que nos disseram que Shiraz seria. Foi então que a nossa experiência iraniana mudou completamente. Ruas sujas e escuras, prédios destruídos, mendigos, vendedores do mercado negro, pessoas com aspecto muito duvidoso, obrigou-nos inúmeras vezes a alterar o nosso trajecto, fazendo com que os 1,8km fossem bastante mais. O nosso mágico Irão caiu por terra naquele momento. Esta cidade é uma desilusão só. Se soubéssemos tínhamos evitado cá vir e tememos várias vezes pela nossa segurança. Respiramos de alívio à chegada ao Qavam. Deixamos a funcionária escolher por nós, dizendo apenas que queríamos comida tradicional. Acabámos por ter a melhor experiência gastronómica do Irão! Ela trouxe uma entrada e um prato para partilhar, dois chás de menta e uma sobremesa e foi suficiente. De entrada trouxe beringela assada com molho de iogurte e frutos secos com cebola caramelizada, que se come com um pão típico iraniano, fresco e fofo. Tivemos quase a pedir outro! Depois trouxe o prato típico, Dizi, que já tínhamos provado em Kashan, mas que aqui foi servido com o mais variado tipo de ervas (alface, alecrim, salsa, hortelã e outras tantas que não soube identificar) e diversos tipos de picles. Tudo montado no nan por camadas e regado com o caldo de estufar o borrego junto com o tomate, a cenoura, cebola e as especiarias tradicionais... aposto que já vos pus a babar! Agora imaginem o cheirinho daquilo! É de chorar por mais! Prometo tentar fazer em casa para experimentarem esta delícia!

O nosso último dia no Irão foi passado a visitar os lugares mais bonitos de Shiraz, talvez os únicos. A nossa primeira visita foi a Nasir-al Mulk, mais conhecida como Pink Mosque. Para mim foi a mais bonita, com os seus vitrais de diversas cores que com a luz do sol enche a pequena sala de cor. O chão totalmente coberto com tapetes persas de tons vermelhos, ficam ainda mais intensos quando as cores caem sobre eles. O tecto com cúpulas rendilhadas de motivos árabes, suportadas por pilares trabalhados e paredes com cerâmicos coloridos de padrões tradicionais, tudo iluminado em tons de amarelo, azul, verde e vermelho, gera um ambiente acolhedor, calmo e propício para rezar e meditar. Vêem-se iranianos sentados tranquilamente nos tapetes, ou ajoelhados, de olhos fechados e a murmurar palavras para Alá. É tão mágico e ao mesmo tempo tão simples que nos faz pensar sobre as diferenças entre religiões. Todas as religiões têm como base a mesma coisa: praticar o bem, ajudar os outros, ser uma pessoa melhor e controlar as massas e os impulsos dentro de cada um de nós, dando-nos consciência e responsabilidade pelos nossos actos. Sem isso, seríamos todos animais sem consciência nem medos e faríamos o que nos desse na real gana, como homens das cavernas. Depois cada religião tem a sua vertente e a sua maneira de ver e interpretar as coisas... deveria interessar para a nossa fé se Jesus é ou não filho de Deus? Se Maomé é mais ou menos importante que Jesus? Se podemos ou não comer porco? Se as mulheres têm de usar véu? Se são os xiitas ou os sunitas ou os cristãos ou os budistas ou os hindus ou xandoístas que têm razão? Na minha opinião, não. O que interessa é termos o bem como objectivo, ajudar os outros sempre que pudermos, viver sem rancor nem ódio, evoluírmos enquanto seres humanos, aprendermos com os nossos erros e sermos felizes. O resto é só "bullshit", pormenores da "história" que pouco interessam. No entanto, as religiões agarram-se a estes pormenores e esquecem-se do verdadeiro sentido da vida - ser feliz. Nesta viagem vamos passar por muitas religiões diferentes: islamismo, hinduísmo, xandoísmo, budismo e nós, enquanto cristãos, vamos percorrer todos estes quilómetros avaliando e analisando toda a informação que vamos recebendo. Uma boa forma de introspecção e análise interior, dando valor a tudo o que já temos, pondo para trás tudo o que não interessa para sermos felizes. Pelo menos, é esse o plano! No final da viagem, veremos se conseguimos. Na segunda mesquita mais bonita Shah Cheragh, a mesquita verde, éramos obrigados a andar com uma guia dos assuntos internacionais, que mais parecia uma freirinha pequenina e enfezada, que nos explicou toda a história por trás do que estávamos a ver. Estudou teologia e tinha algumas dúvidas sobre cristianismo que gostava de ver esclarecidas, nomeadamente porque é que comíamos a carne do profeta e bebiamos o seu sangue, que sentido isso fazia. Não deve conhecer o significado de metáforas, a pobre senhora. Foi num tom um pouco de gozo que fez as perguntas dela enquanto nós tentávamos explicar o melhor que sabíamos. Passamos ao lado de alguns monumentos que nos pareceram um pouco pobres e outro que tínhamos de subir uma escadaria interminável e fomos almoçar ao Haft Khan, um restaurante buffet a atirar ao finesse, com comidas internacionais e locais. Enchemos o bandulho de tal forma, que saímos de lá mal dispostos. A cada lomba da estrada, pensei que ia metralhar o Diogo com tâmaras, pedaços de borrego, chamuças, kebabs e borrifa-lo com uma sopinha boa de cogumelos. Este restaurante tinha a política de que se não deixássemos comida no prato, em vez de pagarmos 1.100.000 rial por pessoa, só se pagava 800.000. Óbvio que, sumíticos como somos, rapámos o prato lambendo todos os cantinhos. (1.100.00 = 6,12€)

Para desfazer toda a comida que rebolava dentro de nós, fomos ao Eram Garden, um lindíssimo jardim com fontes e quedas de água, que rodeavam uma casa antiga toda recuperada, com palmeiras, laranjeiras e floreiras incríveis. Lá vestimo-nos de persas e, mascarados dos pés à cabeça, com todos os adereços que tínhamos direito, tirámos fotos em vários ângulos, fizemos várias poses, saltámos e tirámos fotos com locais. Foi brutal! Rimo-nos à fartazana e esquecemos o evereste de comida que ainda andava numa montanha russa no nosso interior. Viemos felizes do Eram Garden e fomos visitar um café tradicional, estabelecido numa casa típica iraniana, que estava literalmente a cair de podre. O Diogo bebeu um café expresso, vimos as fotos antigas nas paredes e fomos dormir um sono, que o estômago cheio pesa nos olhos! À noite fomos procurar um restaurante para terminarmos em grande a nossa estadia neste país que se revelou ser maravilhoso e super seguro e simpático. Acabámos por ir comer ao Qavam, noutra localização, mas ainda com melhor comida, por incrível que pareça. Comemos uma espécie de papa de courgette com tomate e ovos que se assemelhava em muito às nossas alheiras e cheirava maravilhosamente bem! Depois partilhamos um kebab como nunca tínhamos comido... carne de galinha, com pele estaladiça, com molho de romã e soja, com nozes partidas por cima. Não resistimos e pedimos para repetir... não fosse o almoço levezinho que tínhamos tido não chegar para alimentar duas panças balofas portuguesas, habituadas a papas de sarrabulho e feijoadas! Fomos dormir consolados, de barriga gorda, agarradinhos a fazer conchinha, que isto de não poder fazer demonstrações de carinho em público já começa a causar carências emocionais. Amanhã é dia de irmos fazer uma escala em Kathmandu para pernoitar com o Mário e a Sandra, para irmos para o Butão a 4!

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