PAPUA NOVA GUINÉ

JUNHO 2017

KIMBE

 Lá nos pusemos a caminho de Port Moresby, na Air Niugini (escreve-se como se lê - Air New Guinea) e chegados a POM (Port Moresby) fomos tomar um rico pequeno almoço de leite e muffin de banana e chocolate para mim e café com leite e mufgin de manga para o Diogo. De barriguinha cheia, passamos para as portas de embarque. Ao embarcarmos com destino a Kimbe, o nosso primeiro destino destas férias, demo-nos conta que estamos um bocadinho ansiosos e excitados por chegar! Uma mistura de cansaço e curiosidade por saber como é este tão namorado e desejado destino. Lembro-me da primeira vez que falamos em vir aqui e já tinha esta viagem planeada há 4 anos. Folheamos a revista da avioneta e só dizemos "Quero ver isto!", "Temos de ver aquilo!" O mar em Port Moresby já deixa escapar o quão maravilhoso deve ser o mundo sub aquático aqui, com as suas várias tonalidades, que contrastam com a selva verde que se lança contra o mar e o azul forte do céu. Fizemos uma paragem em Lae antes de seguirmos viagem para Kimbe. Quando lá chegamos, nem queriamos acreditar... finalmente chegamos, após 38h de viagem. O aeroporto era exatamente como nós esperávamos que fosse! De aeroporto pouco tem, apenas um pequeno edifício onde qualquer pessoa externa pode levantar a bagagem, com acesso direto à rua. Lá fora já estava o nosso motorista na sua carrinha para nos levar ao Liamo Reef Resort. Com as expectativas demasiado altas, depois de 35 minutos de viagem, chegamos ao hotel. O problema destas ilhas paradisíacas do pacífico sul é que tudo é caro e tudo é muito fraco. Pagar 100€/noite/quarto neste fim de mundo é muito comum, mas equivale a um 2 estrelas europeu e poderia valer 25€/noite/quarto e ainda seria caro! As zonas comuns são pequenas e nós achamos que somos os únicos hospedes do hotel, que deve ter uns 100 quartos. Somos, pelo menos, os unicos europeus! O quarto é muito fraco, mas é limpo e confortável, por isso está optimo! Fomos almoçar e a comida surpreendeu-nos bastante pela positiva. Comemos um caril de frango mais picante do que qualquer comida que comi na Índia! Bebi 1l de água só durante a refeição... A praia do hotel tem areia preta e é super pequenina, com um pontão (deve ser para noites românticas a dois!) E com vista para os vulcões que nos rodeiam. É lindo! Perguntamos como podíamos fazer para marcar os nossos mergulhos e explicaram-nos que aqui em Kimbe só existe uma escola de mergulho e em toda a ilha de Nova Bretanha só existem duas! Uma aqui em Kimbe e outra em Rabaul, o nosso próximo destino. Lá tratamos de ligar para o hotel Walindi, onde a escola está sediada e marcamos 2 mergulhos para amanhã. Perguntamos também na receção se era seguro ir até à vila de Kimbe e disseram-nos que sim. No entanto, à porta, o segurança disse que era melhor não arriscar. Como não havia nada para fazer, fomos dormir e recuperar forças, com a promessa de pormos o despertador para daí a 2h. Assim foi! O único problema é que não funcionou! Acabamos por nem acordar com o despertador e dormimos 4h seguidas. E que bem que nos soube!! Acordamos ainda mais baralhados do que quando nos deitamos. Eu nem sabia onde estava e demorei mais de 20 segundos a entender o que se estava a passar. "Quem sou eu?"... Quase! Levantamo-nos, pesados que nem chumbo, e fomos jantar. Bem, tenho a dizer que babei quando vi as lulas grelhadas com molho de feijão preto a ser posto à minha frente! E o sabor ultrapassou qualquer expectativa que eu tinha! Estava uma delícia... Depois de terminarmos o jantar, enquanto falávamos convosco, fomos para o quarto e, sem qualquer aviso, veio o sono e caímos para o lado até hoje de manhã!

Após 4h de sono durante a tarde + 7h de sono durante a noite, acordamos hoje de manhã frescos que nem duas alfaces! Prontíssimos para começar o primeiro dia de férias e para conhecer o mundo subaquático daqui da região. Segundo lemos, este é um dos melhores sítios para mergulhar, por isso as expectativas vão lá em cima! Normalmente não é bom presságio... Tomamos o pequeno almoço continental, depois de percebermos a muito custo que era o único a que tínhamos direito e depois da empregada nos ter dito que podíamos comer o que quiséssemos porque estava incluído no preço do quarto. Eu achei estranho e refiz a pergunta de outra forma e aí ela "Oh... no! Only continental." "But can we eat everything we want?" Insistiu o Diogo. Podemos, mas pagamos! AHHHH!!! LOL! Parece que o inglês não é assim tão bom... Comemos rápido e fomos para o Walindi. Esperava por nós um dos "melhores sítios para mergulhar do mundo". Siga caminho que já vai tarde! Com água a 31 graus a 35 metros de profundidade, não posso reclamar... mas a verdade é que estava à espera de melhor. Vimos barracudas, atuns, um tubarão cinzento e corais muito bonitos de várias formas, cores e tamanhos. Mas eu estava à espera de ver mais tubarões e animais pequenos como cavalos marinhos. Nada! Gostei mais do segundo mergulho do que o primeiro. Vimos uma anémona branca com peixes palhaços, os tão famosos Nemos, que é super rara e mesmo muito bonita! O branco contrasta com o laranja dos Nemos e parece quase fluorescente! Os corais são de facto maravilhosos, mas eu queria ver coisas pequenas como camarões, chocos, polvos e caranguejos. O tipo de mergulho conhecido como Macro. Fomos almoçar a uma praia deserta, numa ilhota perdida no meio da baía, onde a água estava seguramente a mais de 35 graus. Uma sopa! Parecia um hot spring! "Ok! Eu fico aqui a viver para sempre!!! Aqui! Neste sítio exato!" Mas depois lembrei-me dos mosquitos... nem pensar! Demos pão e frango a comer aos peixes e eu fiz um vídeo que me parece que ficou brutal! Voltamos para Walindi e para o nosso hotel, para a piscina. Kimbe está a revelar-se num destino muito mais recôndito do que nós esperávamos... somos os unicos hóspedes no hotel e parece-me que brancos, só nós e mais 2 ou 3 pessoas na vila inteira! O que por um lado é excelente quando mergulhamos, porque somos os únicos dentro de água, por outro lado, é um pouco aborrecido quando voltamos ao hotel no fim do mergulho. Acabamos por ir para o quarto dormir a tarde toda e a noite toda. Até porque de tarde aqui é quando voces estão a dormir... ou seja, dormimos de tarde e dormimos à noite, com o jantar às 20h00. É uma animação só!

Sabem aquela sensação quando estão a temperar a água do banho e regulam mal a água quente e quando entram está ligeiramente mais quente do que vocês estavam à espera, mas que ainda não escalda? Aquele "arrepio quente" que dá? Pois bem, é o que nós temos aqui quando metemos o pézinho no mar! Passo a explicar... Quando estamos em mar alto, à superfície está 30 graus. A 30 metros de profundidade está entre os 29 e os 31 graus. E na praia, no rebentar das ondas (de 1cm de altura!!) temos temperaturas de 36 graus! Uma sopa boa! Aqui vou ser feliz, diz o meu cerebro! Nunca estivemos em águas tão quentes quanto estas. O Diogo tirou uma foto a 20.9 metros e vê-se 30 graus lá escrito! Inacreditável! Mergulhar sem fato aqui é um must do! Escusado será dizer que os "papuenses" mergulham de fato com perna inteira e manga comprida, carapuça e botas! Que figurão!!! Eu até suava! Não há nada como mergulhar sem fato, livre de movimentos e leve como uma pena. A única desvantagem é o plâncton que anda na água e que teima em picar nas nossas pernas e braços quando passa por nós.

 

Hoje o mergulho foi bem melhor e até nadamos com golfinhos - a minha parte preferida do dia! Vimos muitos Nemos (peixes palhaço) e alguns deles são bastante territoriais, porque quando me aproximo, enchem-se de coragem e vêm morder-me o nariz! Uns valentes do tamanho do meu polegar! Primeiro começam a ameaçar, batendo com os maxilares na minha direção, chega a ser cómico, e depois lá ganham lanço e muito rápido vêm morder-me o nariz! Vou tentar fazer um video disso. Hoje vimos 5 tubarões a caçar logo no início do mergulho! Brutal! Vimos também um "mantis shrimp" (não sei o nome em português) que é super raro. Uma das mais bonitas vistas aqui são as anemonas de cor amarelo limão super forte (quase fluorescente) e as brancas com reflexos violeta e azul. São raras e são tão bonitas que quase nos hipnotizam.

 

Tenho a dizer que a melhor comida daqui são as bananas e as mangas! As mangas são maravilhosas e as bananas são como as da madeira! Encho-me de bananas ao pequeno almoço. No mergulho vamos sempre almoçar a uma pequena ilha deserta e eles levam manga já partida e descascada... hmmmm!!! Que delicia!! Hoje chegou um grupo de turistas para uma convenção que já compôs o hotel. Agora já somos umas 15 pessoas. Amanhã já partimos para Rabaul para explorar mais uma vila da ilha de Nova Bretanha. Em Rabaul vamos fazer mergulho e ver vulcões. A ver se temos mais animação. O hotel não tem internet, o que não é um bom presságio, e não nos parece que hajam restaurantes, bares ou hoteis perto onde se possa aceder à internet. Espera-nos a casa que alugamos ao airbnb em Kavieng.

O ultimo dia em Kimbe! Dia de dormir até mais tarde (acabamos por acordar às 5h00 da matina!), tomar um bom e longo pequeno almoço, tirar fotos, fazer as malas, pagar contas e dizer adeus. Apanhamos o táxi para o aeroporto e chegamos ao "grande aeroporto" de Hoskins! A segurança é mínima ou quase inexistente! À entrada perguntaram-nos se tinhamos alguma coisa inflamável, bastou dizer que não... top security! Sem qualquer detetor de metais ou de revista. Bastou dizer: nao temos nada! Podem seguir... Entregamos as malas e passamos para a porta de embarque onde qualquer pessoa pode entrar para se despedir do familiar que vai viajar. O avião lá aterrou (com 1h de atraso) e lá fomos nós, rumo a Rabaul. Vimos os vulcões de cima e a vista é linda! Filmamos e tiramos fotos. A viagem do aeroporto até ao hotel parecia que ia ser longa, mas o fulano que nos veio buscar garantiu 30 minutos... hmmm.... duvido! Passados 55 minutos vimos o Hotel Rabaul. Velho e aparentemente sujo, vira as costas aos 5 vulcões. A dona é australiana e tentou "roubar-nos" dinheiro por 4 vezes com a conta do quarto... "no worries, mate!" A nossa conta era de 450K e ela pediu 1.200K, a seguir 660K e lá "fez as contas" para chegar ao valor certo, para nos entregar um quarto que não era o nosso. Valha-me Deus! Troca do quarto 207 para o 410. Leva malas, traz malas... para vermos que não era o 410 mas sim o 310. Num edificio completamente diferente, porque aqueles eram luxury rooms e teria de nos cobrar mais! Fina!! Leva malas, traz malas... para ver se desistimos... e lá vamos nós de novo! Mas até correu bem porque o quarto basic era bem melhor do que o luxury... imagine that! O Diogo fez amizade com um filipino de manila que trabalha num navio, onde estava há 7 meses, e que falava tão alto que ficamos os 2 com dores de cabeça! Fiquei com a ideia que ele deve ter fumado alguma coisa de tão acelerado que ele estava. Marcamos os nossos mergulhos, a ida ao vulcão, jantamos e fomos dormir às 21h00! Que malucos... 

Rabaul... bem melhor e com uma vida social mais ativa do que Kimbe, nasce no meio de uma grande cratera de um vulcão que agora está debaixo de água. Vê-se pelo formato da baía e pela sua constituição que assim foi, há alguns milhares de anos. Em 1994 aquando da primeira erupção, Rabaul deixa de ser capital da província e passa esse estatuto para Kokopo. No entanto, as pessoas de Rabaul não se esquecem que Rabaul foi, outrora, uma cidade bem mais bonita e maior do que Kokopo é. Rabaul está localizada mesmo na base de 5 vulcões, 3 deles aparentemente extintos, um colapsado e desfeito e o outro, o Tarvurvur, ainda deita vapores sulfurosos. Houveram 3 erupções recentemente: 1994, 2006 e 2014. Dizem que é bastante comum haver tremores de terra de bastante intensidade, mas não nesta altura do ano. Contam histórias da altura da última erupção, como foi e o medo que sentiram. Como um fogo de artifício que nunca antes tinham visto e que trepava pelo céu com uma força incalculável. Contam também que os tremores de terra aqui já são vistos como normais e há alturas que nem se dão conta, só quando vêem nas notícias ou no jornal é que se apercebem dele. O nosso hotel até nem é muito mau, dormimos bem, mas os mosquitos... ai os mosquitos comem-nos vivos! O previpic é uma valente bosta! Devíamos ter trazido o tabard que era mais eficiente. Andamos numa guerra aberta com eles, para os matar, quando vimos para o quarto. O Diogo serve de isco, deita-se nu na cama, muito imóvel e eu quando os vejo a aproximarem-se, apanho-os! Até já dei um estalo ao Diogo porque ele tinha um pousado na barba... pay back time! O 1o dia foi passado a mergulhar. Fomos a uma parede cheia de peixes e corais, onde vimos um atum gigante a caçar num cardume de sardinhas que se moviam quase à velocidade da luz, dando aquele efeito de luz prateado e meio espelhado, que muda consoante o movimento delas! A seguir fomos a um barco afundado que estava cheiinho de macro, só para mim, que adoro!!! O mergulho é muito bom, com menos tubarões que Kimbe, mas de grande qualidade com cores e criaturas diferentes por todo o lado. Mais uma vez fomos os únicos mergulhadores em toda a baía! Um autêntico luxo e exclusividade que são extremamente raros de obter! O único problema é que quando chegamos a terra, já não havia nenhum sítio onde se pudesse comer... não que houvesse muita escolha, não há! Só mesmo o hotel, cuja cozinha fecha às 14h00 e já eram 15h00, ou o Yatch Club às sextas à noite, que era o caso! Acabámos por ficar com o Rod Pierce, um tipo super famoso do Travel Channel, de 66 anos, de origens australianas, alemãs e de avó portuguesa com o mesmo sobrenome da mãe do Diogo - Figueiredo, que faz da vida dele encontrar barcos debaixo de água, recupera-los e a seguir vende-los. Ele mostrou-nos o barco, o Barbarian, e o veleiro que ele encontrou e que agora está a recuperar para ficar com ele e viajar pelo mundo fora. Que vidinha a dele! O veleiro vai chamar-se Black Jack (como o jogo de cartas), mas ele queria que se chamasse Black Bitch, mas achou que se ia meter em sarilhos por estes lados. Hahahah!!!

Escusado será dizer que quando lhe disse que eu era arquiteta de interiores, ele pôs-me logo a trabalhar! Disse-me que não tinha jeito nenhum para escolher cores e que tinha pintado o interior do veleiro de cor creme mas que agora não gostava de ver e de facto estava uma bosta total! Parecia vomitado... Mostrou-me as fotos do barco antes de ser afundado, disse-me como ia ser o nome, onde ia ser posto e que ia ser pintado de preto e eu sugeri que ele substituísse a cor creme por um cinza claro, com partes em madeira avermelhada e os pormenores, como as almofadas, uma ou outra moldura das janelas, de burgundy (cor de vinho tinto acastanhado). Ele adorou a sugestão e fomos para o Yatch Club, onde estivemos na net à procura das referências da tinta, enquanto ele nos contava as histórias dele do tempo da guerra, das suas viagens pela Europa, nos anos 70 e das suas descobertas subaquáticas. O Yatch Club é nada mais, nada menos, do que uma espécie de armazém antigo, sem portas, nem janelas, com mesas e bancos altos de madeira com chão em terra, um balcão em madeira e umas arcas com cervejas, bebidas brancas e vinho foleiro. No dia anterior tinha ido à casa de banho cá do sítio e lá vi uma mulher deitada no chão, a dormir, no meio da esterqueira (leia-se xixi!), como se fosse normal, sem responder quando lhe disse "good afternoon", o que me levou a crer que poderia estar morta! Nem queria acreditar quando, sem qualquer aviso, meteu a mão dentro das cuecas, coçou a dita cuja e continuou a dormir! Tirei-lhe fotos e quase fizemos xixi nas cuecas quando contei e mostrei as fotos ao Diogo. Com o estômago a roncar de fome absorvemos tudo o que o Rod nos ia contando, no seu estilo nativo/estrangeirado, com o seu cabelo loiro e barba por fazer, camisa aberta e calções deslavados, chinelo no pé, dentes sujos e tortos e o seu sotaque forte australiano, que fazia lembrar o Crocodile Dundee, com uns ares de Robert Redford. Enquanto íamos enganando a fome com cervejas e batatas fritas, ouvíamos as histórias dele e contávamos as nossas. Mas comparando-nos com ele, nós somos muito pequeninos ainda. Ele leva um avanço de 30 anos, muitos anos de aventuras no mar! 

Entretanto, foram chegando os amigos dele, um alemão, um indiano, um suíço e um inglês que morou em Hong Kong durante muito tempo. Todos eles a morar atualmente na PNG já há algum tempo. Mais cervejas e um shot de tequila para toda a gente, como um sinal de boas vindas a Rabaul para nós, lá nos disseram que às 22h00 dessa noite, daí a 3h, iam partir no barbarian, à descoberta de barcos e aviões afundados e mergulhar em sítios nunca antes tocado pelo homem! Já bastante tocados (leia-se podres de bêbedos), convidaram-nos para irmos com eles, insistindo para nós cancelarmos a nossa viagem a Kavieng e que na segunda de manhã estaríamos de volta a Rabaul. Confesso que achei o convite super tentador, uma aventura como nunca teríamos igual! Ainda por cima de borla! Eu cozinhava e o Diogo punha a mesa e estava dado o nosso contributo! Já estavamos super convencidos a ir, com os olhos a brilhar de excitação, quando começamos a fazer as contas de quantos seríamos dentro do barbarian... O Rod, o indiano, o suíço, o alemão (estes 2 eram claramente um casal!), o inglês, mais 2 fulanos que já estavam no barco e 2 papuenses que iam como empregadas para cozinhar e limpar para eles. 9 pessoas num barco pequeno e eles queriam que fôssemos 11! O Rod já dizia que punha os outros 2 a dormir lá fora no convés para que nós tivéssemos um quarto para nós. Chamados à força à realidade e muito contrariados, dissemos que gostaríamos imenso de ir, agradecemos o convite, mas achávamos que íamos estar a mais e que íamos incomodar. Foi com muita tristeza que tivemos de recusar e voltamos para o nosso hotel, cabisbaixos, quase sem falarmos um com o outro, a tentar agarrarmo-nos ao facto que ia ser demasiado desconfortável, para nos convencermos que tínhamos feito a escolha certa, mas cheios de vontade de esquecer o facto de que íamos ficar tipo sardinhas em lata e voltar atrás e aceitar o convite sem hesitar e partir nessa grande aventura com o Rod Pierce, o descobridor de barcos e aviões afundados! Mas vamos ver as coisas como elas são: 11 pessoas num barco onde cabem 6, é demasiado! Foi um convite brutal, feito por quem já bebeu 6 cervejas e 1 shot de tequila, que nunca mais esqueceremos e lamentaremos não ter ido o resto da vida... Iremos voltar um dia pra embarcarmos com ele numa destas aventuras no mar. Voltamos ao hotel e fomos dormir, a sonhar com a grande aventura que vimos passar à nossa frente e na qual não pudemos embarcar.

A manhã do segundo dia foi passado a mergulhar. Primeiro tentamos mergulhar num avião americano mas os locais cortam as cordas e as bóias localizadoras e depois de 1h a tentar encontrá-lo sem sucesso, passamos para um navio japonês encalhado, baptizado de George, cuja proa se encontrava facilmente aos 12 metros e que se estendia até aos 50. Todo o barco estava preenchido de imensa vida e vimos imensos nemos, frog fish, crocodile fish, nudibranches, moreias, atuns, e os mais variados e coloridos peixes. Um mergulho worldclass sem dúvida! Mesmo assim o meu cérebro estava sempre no Barbarian e no que eles poderiam estar a viver naquele momento. Depois de 1 hora num barco banana com pingos de chuva ocasionais e com peixes voadores que se mostram à medida que íamos passando em longos voos pela superfície da água, chegamos ao spot do segundo mergulho, um avião japonês, aos quais eles chamam zeros, a 4 metros de profundidade. É uma novidade para nós poder assistir a esta lição de história no fundo do oceano e um acontecimento inesquecível. Ainda era possível ver no interior do cockpit os mostradores redondos e o leme do avião, com peixes, estrelas do mar e coral em volta. Fizemos várias fotografias e vídeos. A seguir, continuamos o nosso mergulho no resto do recife e encontramos imensa vida subaquática e os nossos amados peixes sapo disfarçados no meio do coral. O coral aqui é do mais bonito que já vimos e extremamente colorido e diverso, semelhante à grande barreira de coral mas com destaque para as mais variadas e coloridas anémonas com imensas variedades de peixes palhaço e camarões, os habituais habitantes desta fortaleza aquática. Um detalhe importante sobre os nossos mergulhos aqui na Papua, é que além da água estar habitualmente a 31 graus em profundidade, é que os mergulhos costumam demorar entre 60 e 75 minutos, ao contrário dos habituais 35 a 45 minutos, o que é excelente, apesar de serem os mais caros que alguma vez fizemos. Depois fomos almoçar ao Hotel International Gazele, onde o indiano nos disse que estava a trabalhar lá um português chamado Luís Gomes. No entanto, quando lá chegamos, não o encontramos. Tinha ido para uma competição de pesca... mas almoçamos muito bem! Eu comi camarões panados em côco ralado com molho spicy, igual ao do sushi, e o Diogo comeu massa à carbonara! Estavam uma delícia! Deixámos-lhe uma mensagem na recepção em português a cumprimentá-lo. Bem carregados com o saco do equipamento de mergulho, percorremos um longo e penoso caminho até ao mercado de Kokopo, onde éramos as únicas pessoas brancas e onde toda a gente parava para nos cumprimentar e ficavam a olhar para nós como se fôssemos de outro planeta! Até nos deram um banquinho de plástico para nos sentarmos ao lado deles. Uns fofos, estes papuenses!

Decidimos então continuar a nossa viagem como programado, de autocarro local. Os autocarros locais são Toyotas Hiace de 12 lugares onde cabem a muito custo 18 pessoas, mais tudo o que compram no mercado. Apanhamos o autocarro 1A em direção ao mercado de Rabaul que demorou cerca de 1h sentados quase no chão num caminho cheio de buracos. Mesmo assim é uma experiência que não trocávamos por nenhum táxi ou carro luxuoso. A alternativa é pagarmos uns 200 kina (55€) em vez de uns míseros 6 Kina os 2 (1,5€) e irmos dentro de um jipe com ar condicionado e sem piada nenhuma... não teríamos tantas histórias e recordações como temos, de certeza. Quando chegamos ao mercado de Rabaul, depois de alguma luta para conseguirmos entrar, lá apanhámos o "autocarro" 7A que ia para o Hotel Rabaul, o nosso destino final. Quando chegamos o sol já estava a pôr-se. Apesar da Papua Nova Guiné não ser segura à noite, Rabaul é aparentemente mais soft mas mesmo assim não é recomendado andar a pé a partir das 19h, por precaução. Durante o dia é muito tranquilo e seguro e sem dúvida os "autocarros" são o meio de transporte de eleição e mais eficiente sendo seguros e baratos, além de divertidos porque todas as pessoas são extremamente simpáticas, amáveis e prontas para ajudar.

O Tarvurvur... oh o Tarvurvur!! O vulcão adormecido de Rabaul. A deitar vapores sulfurosos, ergue-se castanho e preto, entre os dois extintos, crescendo sobre a baía onde paira uma calma e onde o mar não conhece ondas, apenas o borbulhar da água escaldante do interior do vulcão. Baía esta cheia de cores amarelas, verdes, pretas, vermelhas e laranjas, graças ao enxofre, contra o azul do céu e o verde das palmeiras. Que vista incrível, absolutamente hipnotizante e inesquecível! O borbulhar da água e o chilrear dos pássaros, o vapor sulfúrico que nos queima a garganta e os olhos, serão os nossos companheiros nesta caminhada de 8km até ao cume, através de cinza e pedras pretas, ora grandes, ora pequenas, ora gigantes e assustadoras, ora tão pequenas como terra, gastas e trabalhadas pela lava, como facas tão afiadas que respiram agressividade. O caminho da subida é pesado mas a vista é fabulosa e nas nossas paragens para recuperar forças, parece que estamos noutro mundo ou numa superficie lunar. Quando chegamos ao cume, a vista rouba-nos o fôlego! Vapores esverdeados, terra amarela esbatida de branco e manchada de preto, enchem o ambiente que bem podia ser em Marte! Saltamos de alegria quando chegamos ao topo. Ao nosso redor, só vapor, castanho, preto e amarelo em contraste com o azul do céu! Êxtase!!! Optamos por ir a outro pico, ainda mais alto mas que o nosso guia, o Isaac, garantia ser o melhor. Vamos lá subir mais uns metros. Suados e cansados (a pingar água do queixo e cotovelos, com bolhas de água de segurar no cajado que o Isaac nos deu logo à chegada), paramos para apreciar tudo à nossa volta, respirar fundo, tentar repor as energias, tirar todo o tipo de fotos possíveis (claro que não nos esquecemos do clássico salto!) e ganhar forças para o que vinha a seguir: a descida! Depois de conversarmos e tirarmos as fotos todas a que tinhamos direito, começamos a descer. Como devem imaginar, a descida é muito mais difícil do que a subida, mas nunca pensei que fosse tão difícil. Houve várias alturas de derrapanços, pedras a ceder e que ganhavam lanço até uns valentes metros abaixo. "Essa vou ser eu não tarda nada!", pensei eu. Cheguei a dizer ao Diogo que não conseguia descer e tinha a certeza que se me mexesse um milímetro, rebolava até lá baixo. Ia partir-me toda! Mas passinho a passinho, muito devagarinho, fui descendo com calma, agarrando-me a tudo o que me parecia minimamemte seguro e às vezes ao que não era nada seguro... várias vezes, as pedras cediam e deslizava um metro, numa inclinação a pique, com descargas de adrenalina que me punham a tremer e com o coração na garganta! A meio já os joelhos tremiam e tinha as pernas que nem gelatina. O Diogo só me dizia para ir a correr (é louco, pensei eu) e que se estivesse sozinho já estaria lá em baixo há imenso tempo! De vez em quando lá escorregava, mas estava tudo bem. Ainda se magoou num calcanhar mas tudo passou quando deitou um bocado de agua sulfurosa na ferida. Conta a lenda que o Tarvurvur é protegido por um deus que tem cabeça de homem e corpo de serpente, que protege quem visita o vulcão. Sim, claro! De certeza! Bem, foi uma alegria só quando me vi cá em baixo!! Dei pulos, dancei e cantei! Tinha conseguido! Talvez tenha sido o homem serpente a ajudar... claro está! Apanhamos as nossas pedras de souvenir para a nossa estante e fomos para o hotel, tomar o pequeno almoço, um banho e dormir até ser hora de ir para o aeroporto. E a verdade é que caímos para o lado mal chegamos ao quarto de tão cansados que estávamos. Que excelente forma de festejarmos os nossos 8 anos de casados!

Chegada a hora de dizer adeus a Rabaul, foi também hora de fazer contas e mais uma vez no Hotel acrescentaram mais uma série de armadilhas para tentar sacar o último cêntimo ao parolo do turista. Não tiveram sorte connosco, de onde eles vieram já nós andámos há muito!! No entanto já não tinhamos mais kinas e era domingo (bancos fechados) pelo que nos acrescentram uma taxa de mais de 25% de comissão inventada à pressão. Em 40€ obtive o equivalente a 28€!!! Mesmo assim bem melhor do que os 200 kina que nos pediam no hotel. Pagamos no total 10kina os dois, metemos conversa com os locais e tiramos fotos com eles. Apanhamos boleia à porta do nosso hotel numa carrinha de caixa aberta, tipo pick up, que nos deixou no mercado de Rabaul, onde tivemos de dar uma corridinha para apanhar o autocarro 1A até ao mercado de Kokopo e de seguida o 9A até ao aeroporto. A viagem durou 1h10 em vez dos confortáveis 55min no carro luxuoso...  

O aeroporto é, mais uma vez, um desterro, sem a segurança mínima, que nos preocupa e nos deixa minimamente apreensivos, atentos e desconfiados. Como não tínhamos como calcular quanto tempo iria demorar do hotel até o aeroporto, tivemos de sair com 4h00 de antecedência, contando com as já usuais 2h00 antes do vôo, mais outras 2h00 para a viagem que acabou por durar metade. Com 3h00 pela frente, sem nada para nos entreter, eu fui escrevendo estes posts e o Diogo jogou Super Mario no telemóvel dele. Embarcámos no avião da Air Niugini, rumo a Kavieng. Depois de uma curta viagem de 30 minutos, chegámos ao destino e tínhamos como objetivos marcar os mergulhos para amanhã, sendo que é o único dia que temos para mergulhar aqui, descobrir um banco para amanhã destrocarmos euros por kinas, vermos onde ficava o mercado e restaurantes para jantarmos. Quase não temos kinas e esperávamos que desse para jantarmos. Lá conseguimosir até à escola de mergulho, marcamos os nossos mergulhos e ficamos a saber que mais uma vez íamos ser os únicos deste dive center a mergulhar amanhã. Aqui há 2 centros, um na cidade e outro na ilha de Lissenung, num resort caríssimo e que temos a certeza que não vale o valor que pedem pelos quartos. Fomos jantar a um restaurante recomendado pela instrutora de mergulho e acabamos o nosso dia de aniversário a comer lagosta! A casa que alugamos ao airbnb, é uma pequena cabana em madeira que tinha tudo para ser tão porreira, mas não é... com a fraca escolha de materiais, cores e acabamentos, acaba por parecer velha e suja. Claro está que andei à procura de bichos, já que tinha todo o aspeto de ser um antro bom para a sua criação em série. Mas estava enganada! Não vimos nem um!! A cabana está limpa e bugs free!

Foi bom acordar e poder preparar o nosso pequeno almoço como já é costume fazer em casa. Tínhamos pão de forma, manteiga, torradeira, compota, café (em pó), chá, açúcar e chaleira. Perfeito! Melhor só se houvesse leite para mim. Saímos da cabana de barriga cheia, para irmos ao banco trocar dinheiro e a seguir íamos mergulhar. O guia lá nos fez o breefing habitual, explicando o que íamos ter oportunidade de ver (porque debaixo de água nada é certo) e arrancamos num barco banana para o primeiro spot, chamado "Blue Holes". Só o nome já inspira confiança! Seria um "drift dive", que significa que iríamos ter corrente e íamos deixar-nos levar pela mesma, sem termos de fazer grande esforco. E assim foi, quase sempre sem nadar, de pernas e braços cruzados, lá fomos nós avançando pela parede repleta de coral. A primeira coisa que vimos foi um tubarão de pontas brancas que estava grávida. Era muito gorda e com o sol a bater-lhe nas costas parecia espelhado ou prateado. Num ambiente quase misterioso e sinistro, ia e vinha nas suas voltas da caçada e limpeza de guelras. Seguimos caminho e fomos vendo camarões tão pequenos que precisávamos da lente do guia para os vermos (eu nem sei como é que ele os encontrava!), caranguejos minúsculos que se escondiam por baixo das anémonas onde os nemos costumam estar (eu descobri um!), conchas com moluscos dentro, eu vi um gobi (um peixe comprido que trabalha em conjunto com um camarão, ele toma conta fora da toca, na areia enquanto o camarão limpa a casa, trazendo cá para fora pedritas e lixo) e mais alguns tubarões. Consegui filmar um nemo a morder-me o nariz... mal posso esperar para vos mostrar! Mas, para mim, o melhor deste mergulho eram os túneis, desfiladeiros, cavernas e grutas por onde o guia nos levava, onde víamos corais lindíssimos, cheios de cor, camarões, cardumes enormes de peixes escondidos debaixo de corais altíssimos e atuns a caça-los. Na gruta, virei-me de barriga para cima e ao soltar o ar, este ficava encurralado nas partes mais altas das irregularidades do coral, formando bolhas de ar e os peixes iam lá a pensar que era comida. Giríssimo! Para mim, este mergulho foi o melhor de toda a PNG, o que me deixa mais contente por não ter embarcado no Barbarian! O segundo mergulho também foi muito bom! Este foi um mergulho com mais corrente e aqui tinhamos de usar os nossos ganchos (que trouxemos de Palau) para nos prendermos ao coral e ficar quietos a ver toda a atividade a acontecer. Vimos tubarões a caçar, eagle-rays, tartarugas e barracudas. Tudo a caçar e a comer! Foi top!

Quando terminou, entramos no barco com um sorriso de orelha a orelha, felicíssimos! Eles deixaram-nos numa ilha em frente à ilha principal onde existe um resort para nós almoçarmos e passarmos lá o dia a fazer snorkel. O problema é que não nos avisaram que tinham papagaios e catatuas falantes! Não fui fazer snorkel nenhum!!! Passei a tarde a falar com a Cookie, uma catatua branca com a crista amarela, que infelizmente está com as patitas paralisadas, mas não a impede de chamar a atenção de toda a gente que passa! Super simpática e bem disposta, dizia "Hello Cookie!" A todos, "you ok?" e "you all right?" e mais tarde explicaram-me que ela dançava se lhe disséssemos "Cookie dance! Cookie dance!" Então ela começa a abanar a cabeça para cima e para baixo, levanta a crista amarela e imita o "Cookie dance, Cookie dance!" na sua voz de papagaio! BRUTAL! Eu comecei-me a rir e ela começou a imitar o meu riso, mas de uma forma tão perfeita que o Diogo já não sabia se era eu ou ela a rir! Nunca tinha visto um animal tão bem disposto como este!! Passei a tarde toda com a Cookie a fazer videos e fotos! Também andava lá um papagaio vermelho e azul super simpático que só queria subir para o meu ombro e morder-me os dedos ou as orelhas... um fofo! Viemos embora da ilha tristes por termos de dizer adeus à Cookie e ao seu amigo papagaio. Mas talvez amanhã voltemos para mais "Cookie dance!" Fomos ao supermercado e compramos pernas de galinha, caril e cogumelos para cozinharmos na nossa cabaninha do amor!

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