IRÃO - diário de viagem

NOVEMBRO 2018

KOSHAN + ISFAHAN + YAZD

Depois do choque cultural em Teerão e da visita serena a Esfahan (ninguém sabe ao certo se se escreve Esfahan ou Isfahan), chegamos ao pequeno paraíso de Yazd! Uma vila labiríntica feita de casas de barro e palha, com ruas estreitas, vielas e um horizonte de cúpulas e torres decoradas com luzes azuis e verdes. Chamam-lhe a cidade do vento - badgirs - porque as casas têm uma espécie de chaminés com orifícios por onde o vento entra para arrefecer as casas, uma forma anciã de ar condicionado! Uma cidade do património da humanidade da Unesco, de edifícios baixos, com um ar de Marrakesh, que é encantadora e mágica e transporta-nos para um cenário das mil e uma noites. Casas com pátios interiores, tipo riads, com pequenas fontes, paredes trabalhadas, cúpulas azuis e minaretes que dão forma à paisagem. As burkas pretas, usadas unicamente pelas mulheres, lançam o seu charme, ao mesmo tempo que nos arrepia a espinha e nos deixa enfeitiçados e hipnotizados pela graciosidade e misticismo. No único dia completo que tivemos aqui, fomos visitar a aldeia de Kharanaq, para vermos as ruínas da cidade antiga que eram de facto incríveis! Uma vila no meio do deserto, de casas minúsculas, encavalitadas, para ajudar a resistir ao clima agreste do deserto. Casas charmosas, com pátios interiores, fornos, chaminés super características e um buraco no tecto redondo para entrar luz. De seguida, fomos a Chak Chak, uma minúscula vila que foi construída na escarpa da montanha, com vistas incríveis! Problema? A subida de não sei quantos degraus até termos a oportunidade de gozar a vista, que estava cheio de turistas. Um facto daqui é que praticamente não vemos turistas ocidentais, apenas iranianos e alguns asiáticos. Quase na hora de almoço e com o estômago a fazer rezas intermináveis a implorar por comida, fizemos a viagem até Meybod, através de um deserto sem fim. Aproveitamos para tirar fotos e encher uma garrafinha com areia iraniana. Mas quando lá chegamos, a fome era tanta que já estávamos com dores de cabeça e entramos no primeiro sítio decente que encontramos, comemos um kebab cada um e fomos para o hotel em Yazd descansar. Acordamos para o pôr do sol e vagueamos pelas vielas e ruas desta pequena cidade que respira misticismo. Aproveitamos para provar um gelado tradicional daqui que se come com pistacios esmagados. Esta foi a nossa cidade favorita da viagem ao Irão e não hesitamos em recomenda-la. Fomos jantar ao Malek-o Tojjar, com direito a um buffet, papagaios, um pátio todo ele cheio de paredes com gesso trabalhado, uma fonte central e uma anã com menos de um metro de altura, muito simpática, com uma voz esganiçada. Ficamos a pensar na vida dela... parece fazer parte de um freak show do hotel e restaurante, em conjunto com os papagaios, com todos a pedir fotos dela e com ela. Tinha 35 anos, mais nova do que nós, e parecia saída do Star Wars, num misto de Yoda e Jawa. Fomos até ao hotel a falar dela e da vida explorada que ela deve levar, sem poder sonhar muito alto.

KOSHAN

ISFAHAN

Atestar o depósito do nosso Peugeot 405 (novo porque é made in Iran) custa 3,6€ com o câmbio actual... o paraíso para quem está a viajar. Mas nem isso pagámos... foi nos dado um cartão de débito com código para pagarmos gasolina, parques, etc. Cambiamos 200€ a pensar que era muito pouco para pagar hoteis e refeições e agora parece um poço sem fundo! Nunca nos sentimos assim! Na estrada desde Teerão até Esfahan, parámos em Koshan e tivemos a melhor experiência gastronómica até agora, que nos custou 1,80€/pessoa já com gorjeta incluída! Encontramos por acaso um restaurante típico, onde comemos sentados num sofá/mesa, com as pernas à chinês, com o rabinho alapado num tapete persa, ao lado de uma fonte interior e vitrais coloridos. Comemos MESMO bem e conseguimos provar o que já andávamos há algum tempo à procura - Dizi. Um prato tipo estufado, com borrego e legumes feitos num caldo que depois é amassado com uma espécie de pilão na mesa à nossa frente. Bem... o cheirinho daquilo dá para criar um rio de baba! É servido com um pão tipo nan indiano que se barra com o preparado e se molha no caldo. Hhhmmmmm!!! Eu comi outra vez um kebab de galinha e fiquei invejosa, apesar do meu também estar uma delícia. Koshan é uma vila de ruas estreitas com casas cor de areia por onde o maps.me nos mandou. Quase não cabia o carro e cada esquina dava direito a 5 manobras até conseguirmos passar. Confesso que os postes elétricos aleatórios não ajudavam... Na estrada até Kashan, para assinalar as obras de estrada não se usam sinais luminosos, mas sim dois homens à distância de 200m entre eles, a abanar uma bandeira vermelha, como se estivéssemos na fórmula 1! Vimos também aqui e acolá carros parados com as pessoas a fazerem um belo de um picnic. É preciso lembrar que a estrada foi construída através de um deserto. Também é comum (e caricato) verem-se carrinhas cobertas de peluches para venda. Não vá a menina querer um peluche e teres de o comprar como forma de a impressionar. Não resistimos e parámos para tirar fotos. As pessoas são muito simpáticas. Reservadas, mas simpáticas! Têm algum receio da primeira abordagem, porque não nos conhecem, mas rapidamente lançam um sorriso e tiram fotos. O melhor momento foi quando perguntamos se podíamos tirar fotos com as mulheres de burkas pretas e uma delas dá-me um abraço sentido, deitando a cabeça no meu ombro... super fofinha! Foi mesmo inesperado e inesquecível. O atendimento nos restaurantes é bom, mas quando perguntamos a primeira vez qual era a gorjeta usual, disseram-nos que era entre 10 a 20% da conta... devemos ter cara de turistas. Mas a verdade é que estamos a falar de cêntimos e acabamos por dar mais do que isso muitas vezes. Para quem tem tanto contra os Estados Unidos, foram buscar muita inspiração a essa cultura... o Subway aqui chama-se Freshway e é em tudo igual, excepto no nome. A coca-cola é "made in Iran" e na estrada os postos de serviço parecem pequenas vilas texanas. Já para não falar nas paisagens que se assemelham ao deserto do Arizona. Aqui em todas as cidades expõem orgulhosamente bandeiras pretas, algumas enormes, com frases islâmicas que transmitem um ar assustador a sharia (modo de vida) imposta pelo regime. Aqui e ali vêem-se barracas a oferecer chás e doces a quem passa, que apela ao extremismo islâmico, com concentrações de homens ainda mais suspeitos do que todos os outros, sem que nunca nos tenhamos sentido ameaçados ou em perigo. Talvez seja do meu lenço na cabeça e do ar árabe do Diogo... not!

YAZD

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